2.
Há pessoas que pura e simplesmente não se adaptam, não há volta a dar. Esta vida não é para todos. Um indivíduo bem se tenta encaixar, seguindo um qualquer caminho que traga a ilusão de conforto e preenchimento, mas um dia após o outro acorda e pensa
_____mas que raio faço eu aqui
e não há nenhuma resposta que o possa satisfazer. Já para não falar de uma incómoda ansiedade, sempre presente entre o nascer e o morrer de todos os dias, que faz questão de nos lembrar, mesmo quando aparentemente nos esquecemos, que algo não está, ou nunca esteve, bem. Depois é uma questão de tempo. Até que ponto estaremos dispostos a aguentar, até que ponto suportaremos a insatisfação? Aí cada um tem as suas medidas e os seus limites. Há quem aguente vários anos, há quem aguente apenas mais alguns meses, dias, etc., e outros tem formas de medir mais peculiares, como uma amiga minha que me diz sempre que não aguentará muitos mais orgasmos. Eu, neste momento, conto os andares que me faltam para o fim, enquanto me lanço num vôo delirante entre o décimo piso de um prédio e o chão da rua. Estou agora algures entre o oitavo e o sétimo e tenho ainda pela frente, ou por baixo, uma eternidade. É que, ao contrário do que se diz, quando se está perto da morte não é a vida toda que passa num ápice, é o tempo que nos sobra que parece estender-se pelo infinito. Mas não me importo, esperei tanto por este momento que um pouco mais não faz diferença. Passo pelo quinto, vejo
_____em câmera lenta
o António e o Virgílio, um casal engraçado, boquiabertos com a minha passagem, faço-lhes adeus e esboço um sorriso estúpido como quem diz não se preocupem, está tudo bem, mas as bocas não fecham, dão as mãos com força e seguem-me com aquele olhar de surpresa enquanto sigo a minha viagem, no segundo encontro a vizinha chata quase a desmaiar ao ver o meu corpo em queda
_____podia jurar que danço no ar, entusiasmado com o que aí vem
e faço-lhe uma careta
_____desculpa lá velhota, não é por mal, mas pelo menos já tens algo mais para conversar com as restantes beatas
e então, já perto do limite, abro bem os braços, um mergulho em forma de crucifixo invertido, uma pose bonita para um final grandioso, fixo o chão
_____podia descrever-vos todos os pormenores, todos os pequeninos detalhes, as pedrinhas, o alcatrão gasto, mas para quê demorar-me nisso
e deixo-me ir com expectativa para esse último momento, essa última liberdade, o fim de todas as chatices. Solto uma gargalhada imensa de alegria como uma inocente criança
_____tenho a certeza que se ouve por todo o lado
e pronto. Agora sim, sinto-o, está tudo bem.
Este é o dia mais feliz da minha v...
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