3.
Todos os dias me levanto cedo pela manhã. Tomo um banho rápido, um café e umas torradas, e lá vou eu para o emprego no meu carro velho mas fiável. Tal como a minha rotina. Ao chegar ao meu local de trabalho, sempre um pouco antes de tempo, aproveito para dar uma espreitadela no jornal. Sinceramente, nunca soube porque me deixei levar por esse hábito. Dia após dia, as mesmas desgraças, as mesmas tristezas, se bem que com elas um certo conforto pela minha rotina relativamente segura
_____cheguei até a medir, tomando em conta uma imensidão de variáveis, cruzando múltiplas vezes os dados em meu poder, a probabilidade de me acontecer algo grave num dia igual a todos os outros. Segundo as minhas contas, obviamente com falhas, perto de 0,05 para um problema sério, mas sem morte, 0,02 para uma morte imediata
e agora que o escrevo apercebo-me de que talvez seja essa mesma a explicação para insistir em tal leitura quotidiana. Mas hoje uma notícia despertou-me a atenção para lá do que é costume. “Suicídio feliz”, assim se intitulava. Dava conta de um jovem adulto que se tinha atirado de um décimo andar. Segundo a notícia, com direito a crónica opinativa de um Doutor renomado ao lado
_____a pressão social da necessidade de integração, do sucesso imediato, normal na fase de entrada na vida adulta, etc, etc, mas uma reacção muito peculiar, etc, etc, isto pode significar todo um novo estudo do suicídio, etc, etc, um caso interessantíssimo, uma oportunidade para os académicos
e apoiada nos relatos das várias testemunhas, o rapaz atirou-se do seu andar num estado de extrema felicidade, falando entusiasticamente enquanto voava, dançando até no ar, fazendo adeus aos vizinhos, assumindo uma pose grandiosa já perto do chão, uma gargalhada estridente de criança extasiada a acompanhá-lo nesse último momento, e pronto. O fim. Por entre as testemunhas, dois escritores que, nem por acaso, se debruçam constantemente sobre a morte, sem saber como reagir a uma coisa assim
_____tínhamos até uma certa proximidade, mas nós, que por sermos escritores julgamos ter maior sensibilidade em relação às mais diversas idiossincrasias, nunca nos apercebemos de nada, digo-o humildemente, uma pessoa normalíssima, sabe, sempre bem disposta, e afinal deu nisto, já viu? Por vezes parecemos tão seguros das coisas que pensamos, e afinal tão distantes que estamos de saber seja o que for, sabe? É que esta morte foi um espectáculo magnífico, eu sei que é estranho, mas foi o que vimos, e agora quase que apetece fazer uma festa no seu funeral, mas ao mesmo tempo chorar a sua partida, enfim, uma confusão de sentimentos, as palavras perdem sentido, entende?
e eu, que de tanto ler aqueles dois fiquei com medo de sair de casa e entrei nesta rotina medrosa e merdosa, calculando minuciosamente probabilidades, eu que passo 87% do tempo que estou acordado a pensar na iminência da morte
_____será que é agora, e agora, e agora
a respiração atabalhoada, o suor a escorrer-me pelo corpo, o coração descompassado, ao ler aquelas palavras comecei a sentir um impulso terrível, incontrolável, ao ponto de só me apetecer largar o emprego, pegar no carro e dirigir-me àquele local
_____o que fiz
encontrar aqueles dois escritores que tanto li
_____o que aconteceu
mandá-los para o caralho por me terem feito viver em medo constante e afinal não saberem o que dizem
_____o que mandei
e então de novo entrar no carro e espetar-me contra uma árvore ou algo assim largando uma gargalhada de êxtase, um final em grande, mas isso já não fiz porque ao reparar na morte fresca do rapaz ali perto
_____uma mancha cor de vinho entranhada no alcatrão
só me deu para deitar de barriga para baixo onde ele havia aterrado
_____deitei-me
encostar a cara ao chão e sentir o cheiro do sangue mal lavado
_____encostei, senti
e de um fôlego só respirar fundo todo o ar que mal havia respirado em todos estes anos, e ao fazê-lo uma sensação de vida incrível, uma gargalhada estridente
_____tenho a certeza que se ouviu por todo o lado
e paz. Finalmente paz.
Levantei-me, um pedido de desculpa aos escritores que olhavam para mim sem nada perceber, fui embebedar-me para o bar mais próximo, cantar todas as músicas que queria ter cantado antes de seguir a vida que segui, pegar-me ao murro com um cabrão qualquer que não estava a gostar da minha felicidade, perder uns dentes e ganhar um olho negro, mas não quero saber, não me interessa, não me preocupa, que se fodam todas as preocupações, que se fodam todos os medos, que se foda tanto absurdo. Desde que li a notícia daquele rapaz só me apetece largar tudo o que a medo me agarrei e dizer à morte que não me espere tão cedo e muito menos de joelhos.
Domingo, Abril 30, 2006
Domingo, Abril 16, 2006
2.
Há pessoas que pura e simplesmente não se adaptam, não há volta a dar. Esta vida não é para todos. Um indivíduo bem se tenta encaixar, seguindo um qualquer caminho que traga a ilusão de conforto e preenchimento, mas um dia após o outro acorda e pensa
_____mas que raio faço eu aqui
e não há nenhuma resposta que o possa satisfazer. Já para não falar de uma incómoda ansiedade, sempre presente entre o nascer e o morrer de todos os dias, que faz questão de nos lembrar, mesmo quando aparentemente nos esquecemos, que algo não está, ou nunca esteve, bem. Depois é uma questão de tempo. Até que ponto estaremos dispostos a aguentar, até que ponto suportaremos a insatisfação? Aí cada um tem as suas medidas e os seus limites. Há quem aguente vários anos, há quem aguente apenas mais alguns meses, dias, etc., e outros tem formas de medir mais peculiares, como uma amiga minha que me diz sempre que não aguentará muitos mais orgasmos. Eu, neste momento, conto os andares que me faltam para o fim, enquanto me lanço num vôo delirante entre o décimo piso de um prédio e o chão da rua. Estou agora algures entre o oitavo e o sétimo e tenho ainda pela frente, ou por baixo, uma eternidade. É que, ao contrário do que se diz, quando se está perto da morte não é a vida toda que passa num ápice, é o tempo que nos sobra que parece estender-se pelo infinito. Mas não me importo, esperei tanto por este momento que um pouco mais não faz diferença. Passo pelo quinto, vejo
_____em câmera lenta
o António e o Virgílio, um casal engraçado, boquiabertos com a minha passagem, faço-lhes adeus e esboço um sorriso estúpido como quem diz não se preocupem, está tudo bem, mas as bocas não fecham, dão as mãos com força e seguem-me com aquele olhar de surpresa enquanto sigo a minha viagem, no segundo encontro a vizinha chata quase a desmaiar ao ver o meu corpo em queda
_____podia jurar que danço no ar, entusiasmado com o que aí vem
e faço-lhe uma careta
_____desculpa lá velhota, não é por mal, mas pelo menos já tens algo mais para conversar com as restantes beatas
e então, já perto do limite, abro bem os braços, um mergulho em forma de crucifixo invertido, uma pose bonita para um final grandioso, fixo o chão
_____podia descrever-vos todos os pormenores, todos os pequeninos detalhes, as pedrinhas, o alcatrão gasto, mas para quê demorar-me nisso
e deixo-me ir com expectativa para esse último momento, essa última liberdade, o fim de todas as chatices. Solto uma gargalhada imensa de alegria como uma inocente criança
_____tenho a certeza que se ouve por todo o lado
e pronto. Agora sim, sinto-o, está tudo bem.
Este é o dia mais feliz da minha v...
Há pessoas que pura e simplesmente não se adaptam, não há volta a dar. Esta vida não é para todos. Um indivíduo bem se tenta encaixar, seguindo um qualquer caminho que traga a ilusão de conforto e preenchimento, mas um dia após o outro acorda e pensa
_____mas que raio faço eu aqui
e não há nenhuma resposta que o possa satisfazer. Já para não falar de uma incómoda ansiedade, sempre presente entre o nascer e o morrer de todos os dias, que faz questão de nos lembrar, mesmo quando aparentemente nos esquecemos, que algo não está, ou nunca esteve, bem. Depois é uma questão de tempo. Até que ponto estaremos dispostos a aguentar, até que ponto suportaremos a insatisfação? Aí cada um tem as suas medidas e os seus limites. Há quem aguente vários anos, há quem aguente apenas mais alguns meses, dias, etc., e outros tem formas de medir mais peculiares, como uma amiga minha que me diz sempre que não aguentará muitos mais orgasmos. Eu, neste momento, conto os andares que me faltam para o fim, enquanto me lanço num vôo delirante entre o décimo piso de um prédio e o chão da rua. Estou agora algures entre o oitavo e o sétimo e tenho ainda pela frente, ou por baixo, uma eternidade. É que, ao contrário do que se diz, quando se está perto da morte não é a vida toda que passa num ápice, é o tempo que nos sobra que parece estender-se pelo infinito. Mas não me importo, esperei tanto por este momento que um pouco mais não faz diferença. Passo pelo quinto, vejo
_____em câmera lenta
o António e o Virgílio, um casal engraçado, boquiabertos com a minha passagem, faço-lhes adeus e esboço um sorriso estúpido como quem diz não se preocupem, está tudo bem, mas as bocas não fecham, dão as mãos com força e seguem-me com aquele olhar de surpresa enquanto sigo a minha viagem, no segundo encontro a vizinha chata quase a desmaiar ao ver o meu corpo em queda
_____podia jurar que danço no ar, entusiasmado com o que aí vem
e faço-lhe uma careta
_____desculpa lá velhota, não é por mal, mas pelo menos já tens algo mais para conversar com as restantes beatas
e então, já perto do limite, abro bem os braços, um mergulho em forma de crucifixo invertido, uma pose bonita para um final grandioso, fixo o chão
_____podia descrever-vos todos os pormenores, todos os pequeninos detalhes, as pedrinhas, o alcatrão gasto, mas para quê demorar-me nisso
e deixo-me ir com expectativa para esse último momento, essa última liberdade, o fim de todas as chatices. Solto uma gargalhada imensa de alegria como uma inocente criança
_____tenho a certeza que se ouve por todo o lado
e pronto. Agora sim, sinto-o, está tudo bem.
Este é o dia mais feliz da minha v...
Sábado, Abril 08, 2006
1.
Carry my joy on the left, carry my pain on the right (Bjork)
A propósito desta música, ela disse-me que cada um dos seus
_____imensos
seios lhe transmitia sensações opostas, o da direita dor sem qualquer prazer, o da esquerda prazer sem dor
_____mas mesmo com dor também sinto prazer neste
acrescentava. Não conseguia explicá-lo, apenas os sentia assim. Disse-me que a primeira coisa que imaginou ao descobrir isto
_____ainda novinha
foi que algo estivesse errado com o da direita. Nunca ninguém lhe conseguiu explicar o porquê de tão insólita situação. Um ou outro especialista, já babado com a conversa sobre as suas enormes mamas, enquanto ela segurava uma e outra e explicava pormenorizadamente as sensações, ainda lhe disse, entre a excitação e o embaraço
_____o problema deve estar na sua cabeça, menina, deve estar na sua cabeça
e ela saía, desolada, não percebendo como era possível que alguém lhe remetesse o problema para a imaginação quando as sensações que tinha eram tão físicas, tão reais.
Foi por isso que quando ela me disse
_____quero que a minha primeira vez seja convosco
fez questão de acrescentar
_____mas ninguém me toca na mama direita
e nós, obviamente, respeitámos.
Estava ele por trás dela, penetrando-a com sofreguidão, eu a beijá-la para lhe acalmar a primeira dor, quando ela gritou, por entre um anúncio ofegante
_____aperta-me a mama
e eu logo a agarrar-lhe a esquerda
_____a outra, a outra
e ao fazê-lo, surpreendida e um pouco a medo, um ofegar ensurdecedor, depois um grito sem som e um rio a escorrer para cima dele, eu e ele a acompanhá-la na excitação, cada um na sua corrente, todos a desembocar num imenso orgasmo.
Depois, uma tranquilidade etérea começou a inundar-nos, qual sonho pacífico de mar. Lembro-me de pensar que gostaria de nos poder observar, uns metros mais acima, enquanto nos deixávamos estar naquela cama, três corpos entrelaçados, três corpos, sentia-o, fundindo-se entre si num encontro calmo de ondas, misturando-se, tomando o lugar de uns e outros, e no entanto movimento nenhum a desenhar-se entre nós. Eu, ela no meio, e ele. Uma sonolência profunda de prazer a tomar-nos sem aviso, eu quase a fechar os olhos e uma mão, a dela, de encontro à minha e encaminhando-a para a sua mama direita num desejo de afago. Desperta por nova surpresa, não resisti a perguntar-lhe
_____não era esta a que te doía
e ela, abrindo um pouco os olhos na minha direcção, um sorriso de paz no rosto
_____sabes, é um pouco estranho para mim também. É como se aqui tivesse guardado o orgasmo de toda uma vida. Mas não da minha. O orgasmo de toda a vida que existe por todo o lado.
Sorri com a explicação, chamei-lhe
_____tolinha
e levantei-me para fumar um cigarro à janela.
Ao olhar para as ruas, nem o cigarro consegui acender. O sol brilhava como nunca tinha visto, os carros estavam todos parados, vazios, as pessoas deitadas nos passeios, nas estradas. Nos seus rostos, a mesma sonolência de prazer, o mesmo sorriso de paz.
Voltei para a cama e embrulhei-a com os meus braços, com as minhas pernas, com todo o meu corpo. Como que protegendo com tudo o que tinha o que nunca poderia desaparecer.
Carry my joy on the left, carry my pain on the right (Bjork)
A propósito desta música, ela disse-me que cada um dos seus
_____imensos
seios lhe transmitia sensações opostas, o da direita dor sem qualquer prazer, o da esquerda prazer sem dor
_____mas mesmo com dor também sinto prazer neste
acrescentava. Não conseguia explicá-lo, apenas os sentia assim. Disse-me que a primeira coisa que imaginou ao descobrir isto
_____ainda novinha
foi que algo estivesse errado com o da direita. Nunca ninguém lhe conseguiu explicar o porquê de tão insólita situação. Um ou outro especialista, já babado com a conversa sobre as suas enormes mamas, enquanto ela segurava uma e outra e explicava pormenorizadamente as sensações, ainda lhe disse, entre a excitação e o embaraço
_____o problema deve estar na sua cabeça, menina, deve estar na sua cabeça
e ela saía, desolada, não percebendo como era possível que alguém lhe remetesse o problema para a imaginação quando as sensações que tinha eram tão físicas, tão reais.
Foi por isso que quando ela me disse
_____quero que a minha primeira vez seja convosco
fez questão de acrescentar
_____mas ninguém me toca na mama direita
e nós, obviamente, respeitámos.
Estava ele por trás dela, penetrando-a com sofreguidão, eu a beijá-la para lhe acalmar a primeira dor, quando ela gritou, por entre um anúncio ofegante
_____aperta-me a mama
e eu logo a agarrar-lhe a esquerda
_____a outra, a outra
e ao fazê-lo, surpreendida e um pouco a medo, um ofegar ensurdecedor, depois um grito sem som e um rio a escorrer para cima dele, eu e ele a acompanhá-la na excitação, cada um na sua corrente, todos a desembocar num imenso orgasmo.
Depois, uma tranquilidade etérea começou a inundar-nos, qual sonho pacífico de mar. Lembro-me de pensar que gostaria de nos poder observar, uns metros mais acima, enquanto nos deixávamos estar naquela cama, três corpos entrelaçados, três corpos, sentia-o, fundindo-se entre si num encontro calmo de ondas, misturando-se, tomando o lugar de uns e outros, e no entanto movimento nenhum a desenhar-se entre nós. Eu, ela no meio, e ele. Uma sonolência profunda de prazer a tomar-nos sem aviso, eu quase a fechar os olhos e uma mão, a dela, de encontro à minha e encaminhando-a para a sua mama direita num desejo de afago. Desperta por nova surpresa, não resisti a perguntar-lhe
_____não era esta a que te doía
e ela, abrindo um pouco os olhos na minha direcção, um sorriso de paz no rosto
_____sabes, é um pouco estranho para mim também. É como se aqui tivesse guardado o orgasmo de toda uma vida. Mas não da minha. O orgasmo de toda a vida que existe por todo o lado.
Sorri com a explicação, chamei-lhe
_____tolinha
e levantei-me para fumar um cigarro à janela.
Ao olhar para as ruas, nem o cigarro consegui acender. O sol brilhava como nunca tinha visto, os carros estavam todos parados, vazios, as pessoas deitadas nos passeios, nas estradas. Nos seus rostos, a mesma sonolência de prazer, o mesmo sorriso de paz.
Voltei para a cama e embrulhei-a com os meus braços, com as minhas pernas, com todo o meu corpo. Como que protegendo com tudo o que tinha o que nunca poderia desaparecer.
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