Terça-feira, Maio 30, 2006

5.

A minha mulher deixou-me. Assim, sem mais nem menos. Cheguei a casa, olhei em volta, e metade do que lá existia deixou de existir. Ela incluída. Eu sabia que isto estava para acontecer, mas nunca pensei que não houvesse um aviso, sequer. Ela não gostou que tivesse mudado de vida, não entendeu o que se passou comigo. Não aceitou que de um momento para o outro tivesse abandonado aquele emprego de malucos

_____horas e horas a lidar com números, contas, orçamentos, vidas inteiras transformadas em coisas frias, mortas, a cabeça a pedir paz

e decidisse seguir o que sempre sonhei, cantar como se não houvesse nada mais para além disso

_____mas estás parvo, dez anos comigo e agora é que te dá para isso

se não o tivesse feito, acabaria por ser eu a deixá-la num final trágico

_____uma corda à volta do pescoço, um vôo delirante, uma dose exagerada de comprimidos

mas isso não era para mim, antes não ter dinheiro do que não ter vida

_____e como é que queres viver sem dinheiro, explicas-me

podia começar por baixo, cantar num desses bares pirosos para testar a reacção, depois, quem sabe, entrar num desses concursos estúpidos da tv ou juntar-me a uma banda, fazer como todos os outros porque não sou mais do que nenhum, só quero é cantar, cantar

_____he believes in a beauty, he’s venus as a boy

mas ela não entendeu, achou que estava a enlouquecer

_____estás a enlouquecer

pelo que nada mais me restou a não ser esperar que ela me dissesse

_____vou-me embora

por muito que o meu amor por ela continuasse a existir, por muito que agora me apetecesse cantar

_____his fingers, they focus on her
_____aroused her, so accurate
_____they set out the beauty in her
_____he’s venus, he’s venus as a boy

e amá-la como nunca, tocá-la como o rapaz da música, despertar algo adormecido nela, mas nada, dela apenas um silêncio que se prolongou por semanas, um mal-estar que se expressava em todo o seu corpo, um adeus que mesmo sem aviso se anunciava, e agora meia casa vazia, meia casa à espera de ser preenchida, e o meu amor a pedir-lhe desculpa, mas a dizer-me que é tempo de seguir em frente.
4.

Como é que aquele parvo foi capaz de me fazer isto? Dez anos reduzidos a pó. Obrigou-me a deixá-lo entregue à sua loucura, tudo por causa de uma estúpida notícia de jornal. Uma noite chega-me a casa, bêbedo e com uns dentes a menos, a dizer-me, naquele sorriso incompleto

_____prepara-te, vem aí uma nova vida

e eu, que tanto gostava da nossa, logo a assustar-me. Dizia-me que queria cantar como se nada mais houvesse para além disso

_____e eu, não existo

mas ele insistia e eu perdoava-lhe pensando no álcool, falava-me de um sonho antigo que eu desconhecia completamente, um acesso de loucura, parecia-me, depois pegou em mim por baixo dos braços, encostou-me à parede, e apesar de sujo e desdentado beijou-me como nunca me tinha beijado, um entusiasmo que também desconhecia, eu preocupada

_____espera, espera, mas o que é que se passou

e ele

_____deixa, depois explico-te

e continuava a beijar-me, eu a deixar-me levar, uma noite de sexo inacreditável, mil e um orgasmos que não poderia evitar e no entanto uma grande confusão na minha cabeça, no dia seguinte lá tentou explicar-me qualquer coisa de um suicida, escritores, um momento de revelação, e eu sem perceber nada, como era possível que num instante apenas apagasse dez anos de vida e lhe desse para isso, e ele a dizer-me que não podia ser de outra forma porque senão enlouqueceria, faria qualquer coisa trágica, antes viver sem dinheiro mas a cantar do que não viver, mas como viver sem dinheiro, perguntava eu, e ele a falar-me de bares, concursos, bandas, a enlouquecer de vez, a pensar que tinha vinte anos de novo e o mundo todo à frente, mas quando tinha vinte anos não me dizia nada disto, só frases melosas como

_____quero viver contigo para sempre

e

_____amo-te tanto

nada mais interessava, éramos só nós, e agora isto, depois começa a cantar-me qualquer coisa de vénus, como que a querer explicar melhor o que queria, e eu a imaginar

_____alguém o drogou

mas não, aquilo era mesmo dele, ou melhor, de uma parte dele nunca antes revelada, e eu irritada, tão irritada com tudo aquilo, que se falasse do que me ia na cabeça era para matá-lo com palavras, mas para quê se não se deve contrariar um louco, pelo que decidi remeter-me ao silêncio esperando que esta fase lhe passasse, só que ele insistia dia após dia em libertar a beleza em mim e coisas do género e nada mais me restou a não ser fazer as minhas malinhas e pôr-me a andar antes que também eu enlouquecesse, por muito que o meu amor me dissesse que era nele que repousava.