8.
Sr. Juvenal era taxista. Talvez por isso, talvez por não ter vida própria, Sr. Juvenal dedicava o seu tempo a absorver as vidas dos outros. Dizia-se até, no café perto de sua casa, que Sr. Juvenal tinha um dom
____é verdade, é verdade, ele vê as pessoas transparentes
embora ele próprio não acreditasse nisso
____escuto-lhes o silêncio, só isso.
Era assim desde pequenino e raramente, porque a modéstia o impedia de dizer nunca, se enganava. Fora, há já muitos anos, o primeiro a dizer que aquele Dr. censurado não era flor que se cheirasse
____algo está muito mal naquele homem
quando todos os outros lhe faziam, literalmente, uma vénia à passagem. Também advertira, com muita pena, que Susaninha enlouqueceria se com ele casasse
____vai enlouquecer, a menina
quando aos olhos de todos Susaninha, quase D. Susana, parecia segurar com as duas mãos qualquer vida que escolhesse. Mas, independentemente do silêncio que escutasse ou da transparência que vislumbrasse, nunca se intrometera em nada
____isso não posso, nem pensar
para não correr o risco de dizer algum disparate.
No entanto, naquele dia em particular, naquele momento preciso, Sr. Juvenal já não queria saber de dons ou de regras. Tudo o que Sr. Juvenal pedia era para não ter razão
____agora não, por favor
para se enganar redondamente, e desesperava por isso tremendo descontroladamente e de suor a escorrer por todo o corpo, agarrado ao volante do táxi que, no mesmo local onde tinha acabado o último serviço, continuava parado. Como é que não percebera logo
____que estúpido, que estúpido, que estúpido
o que estaria para acontecer? Aquela mulher nos seus cinquentas, tão elegante e tão arranjada, que saíra do seu táxi há minutos, tinha o rosto pintado a ódio, um ódio de tal modo visceral e urgente que só poderia antever algo terrível. E Sr. Juvenal, que se perdera algures no tempo por entre o dinheiro trocado e a elegância da senhora
____que estúpido, que estúpido
só mais tarde, provavelmente demasiado, interiorizara o que tinha sentido
____vai matar alguém, ela vai matar alguém.
Estas palavras ecoavam-lhe na cabeça, rodeavam-lhe qualquer outro pensamento e paralisavam-no de medo, não conseguia sequer tirar as mãos que apertavam o volante com força cada vez maior. Sentia-se como alguém que fecha os olhos e se encolhe perante um desastre iminente, e só desejava que, por um milagre ou qualquer outra coisa fora do normal, tudo não passasse de um grande disparate que se pusera a imaginar. Mas não, a imaginação de Sr. Juvenal nunca era contrariada, por muito que lhe custasse admitir. E percebera-o para sua desgraça no mesmo instante em que, interrompendo o seu estado de pânico, a porta do carro se abrira e de novo entrara aquela mulher. O ódio, momentos antes tão vincado, desaparecera por completo, e agora apenas uma seca expressão de alívio lhe ocupava o lugar. E foi ao reparar nessa transformação que Sr. Juvenal teve o maior choque: aquele rosto, que pintado de ódio lhe fora desconhecido, revelava-se agora outro. Pior do que saber que aquela mulher matara alguém, pior ainda do que o ter imaginado e mesmo assim nada ter feito, era ter percebido de quem se tratava. Sr. Juvenal, que rompera nesse mesmo instante num choro desalmado, só conseguiu soltar, entre soluços
____mas que foste tu fazer, Susaninha, que foste tu fazer?
ao que D. Susana, que imediatamente o reconhecera sem mostrar qualquer surpresa, qualquer emoção, apenas respondeu
____esse nome perdi-o há muito
e de seguida, sempre com a mesma expressão
____leve-me para a esquadra, se faz favor.
Sr. Juvenal, mergulhado em lágrimas e em culpa, obedeceu. Consta que, ao chegar à Polícia, também ele se tentou entregar, mas ela logo o repreendeu
____não se meta nisto. Aquele pedaço de merda matei-o só eu
e ele de pronto recuou, estupefacto com o orgulho com que D. Susana
____D. Susana, não a Susaninha, nunca a Susaninha
acentuara aquelas palavras.
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