9.
Reparem em quanta elegância transporta aquele corpo no momento em que ultrapassa a porta deste mal disfarçado esconderijo, dirigindo-se a mim. Reparem como
_____apesar de todo o ódio fervilhante apontado nesta direcção
nunca chega a perder a compostura. E ainda dizia ela que comigo não se aprendia nada
_____contigo não se aprende nada, seu filho da puta
como se o facto de o acentuar com um filho da puta me pudesse fazer qualquer comichão. Tão ingénua, esta minha mulher. Tapada ao ponto de não perceber que fui eu que a ensinei a aguentar com tudo, a tornar-se forte, a deixar-se de lamechices e a viver a vida como deve ser vivida
_____sem medo, sem piedade
a fazer o que raio lhe der naquela cabecinha. E eu sei ao que vem, sei o que vai fazer. Aquele olhar não engana ninguém. Ou pelo menos não me engana a mim, que o sinto todas as manhãs ao cumprimentá-la
_____pedagogicamente
com o meu sorriso mais hipócrita. O facto de ter tido a coragem de se deslocar até aqui sem se esconder
_____tão ingénua, a pensar que nunca dava pela sua presença
apanhar-me todo nú amarrado a uma cruz, de mordaça na boca
_____o jovem dominador vestido a latex ao meu lado, de chicote caído e boca aberta de espanto
e confrontar-me, só mostra que é desta, é desta que me vai matar. E julgam o quê, que estou em pânico? Não me façam rir, não me façam rir ainda mais por dentro. Olhem só para mim, prestes a morrer crucificado
_____crucificados morrem os profetas, não os filhos da puta
e continuo espirituoso, se esta ironia não tem um piadão, então o que terá? Esta vida não é para os meninos de coro
_____é para os meninos de couro, ah ah
e tomem lá outra antes de me ir, que o corpo dela a aproximar-se diz-me que já não faltará muito. Quando finalmente pára à minha frente, eu insisto em não desenhar uma única expressão. Ela tenta imitar-me, mas eu conheço-a demasiado bem. Bem sei que a sua vontade era soltar aquilo tudo e fazer disto uma tempestade sentimentalona, mas apesar disso não perde a compostura, não a perde e eu até fico um bocadinho orgulhoso. Leva suavemente
_____que elegância
a mão à mala para tirar a arma
_____o jovem dominador grita histérico e foge, que piadão
e prepara-a com aparente tranquilidade. Olha-me nos olhos durante uns segundos, à espera que me acagace e lhe implore qualquer coisa, mas não quero desperdiçar mais uma oportunidade de lhe dar uma lição
_____mesmo sendo a última
e mantenho-me completamente inexpressivo. Reparem agora como a deixo ainda mais fodida com a minha atitude, reparem que se pudesse me mataria barbaramente para rebentar em choro de seguida
_____que clichê
e no entanto resiste. Resiste estoicamente. Mas ela sabe que também não vou ceder, ela sabe-o agora melhor do que nunca, é por isso que se decide a balbuciar umas palavras para a despedida
_____não demonstra nervosismo a falar, só mostra que a ensinei bem, não treme ao levantar a arma, não hesita ao apontar-me a cabeça, comete apenas o erro de pensar que lhe ligo alguma
e eu deixo-a falar de arma em riste
_____amarrado e amordaçado, que mais poderia eu fazer?, ah ah
imaginando ao mesmo tempo o ar embasbacado dos meus colegas quando souberem da notícia
_____o Doutor censurado?, não pode ser
fingindo surpresa e consternação enquanto riem por dentro, e eu a rir-me por cima por pensarem que alguma vez me poderiam enganar, mas quem é que eles pensam que eu sou?
_____és um filho da puta
diz-me ela entretanto, afinal não deve ter aprendido nada, mas agora o que é que isso importa?, ela pode dizer o que quiser
_____nunca
porque se querem saber a minha opinião
_____deverias
acho que já vem demasiado tarde
_____ter
pois sessenta e poucos anos com a vida em grande, ninguém a fazer farinha comigo, ninguém a ousar pisar-me, eu no topo do meu mundo, controlando tudo, sessenta e poucos anos, dizia, são mais do que suficientes, por isso adeus seus palhaços, adeus seus fracos, espero que tenham aprendido qualquer coisa
_____nascido
e eis que com o clique que ouço apaga-se-me de vez qualquer luz.
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