Terça-feira, Janeiro 08, 2008

10.

Enquanto ela me encostava

_____literalmente

à parede, só me vinha à cabeça o dia em que saí de casa dos meus pais

_____do quarto ainda adolescente

esperando chegar a um qualquer lugar distante. Acima de tudo, isso

_____distante.

Não adiantava espalhar as mãos pelo meu corpo, cobri-lo com o dela, percorrê-lo com a boca, só me conseguia lembrar daquela manhã em que descobrira por fim

_____qual terramoto interior

que carregava um outro dentro de mim. Esta devoradora de corpos a tentar consumir-me, esvaziar-me, extasiar-me

_____a língua a rodear, a chupar o mamilo direito, depois a boca a descer por mim

e eu nem um tímido gemido, apenas a recordação dos meus pais à porta de casa, olhando para mim e acenando enquanto o táxi se preparava para arrancar

_____para onde, menina?

_____para longe

os seus rostos forçando sorrisos sem conseguirem disfarçar a preocupação, e nem sabiam então que eram afinal dois que ali partiam

_____um escondido no corpo de outro

tal como ninguém mais sabia, nem mesmo aquele que me multiplicou, o maluquinho a quem bastava dizer o meu nome


_____margarida

para me molhar toda, aquele maluquinho cujo tactear parecia adivinhar, em cada momento, o que em mim iria estremecer, como se vivesse aqui dentro

_____e vivia, por mim toda

algures entre o coração e a superfície do corpo, eu nisto e a canibal

_____que tens?

finalmente percebendo que não era ali que eu estava, foi preciso meter a cabeça entre as minhas pernas para perceber que hoje não seria como o normal, não haveria nenhum

_____come-me

nenhum

_____fode-me

de mim apenas silêncio e a espera impaciente de que se fosse embora

_____pronto, vou-me embora

para me deixar a sós com as minhas recordações, com os meus pais, com o meu maluquinho, com a minha bebé

_____bem que poderia tê-la chamado Bjork

e tentar perceber como vim aqui parar, o que me fez sujeitar a isto

_____um corpo atrás de outro, todos os corpos devorando o meu

por que carga de água nunca disse

_____agora não

e me limitei ao habitual

_____faça favor, tire mais um pedaço

tentar perceber, dizia, que parte de mim perdi de vez naquele dia, porque a parte que de mim achei sei eu bem e tem a cara dele.

Quinta-feira, Outubro 25, 2007

9.

Reparem em quanta elegância transporta aquele corpo no momento em que ultrapassa a porta deste mal disfarçado esconderijo, dirigindo-se a mim. Reparem como

_____apesar de todo o ódio fervilhante apontado nesta direcção

nunca chega a perder a compostura. E ainda dizia ela que comigo não se aprendia nada

_____contigo não se aprende nada, seu filho da puta

como se o facto de o acentuar com um filho da puta me pudesse fazer qualquer comichão. Tão ingénua, esta minha mulher. Tapada ao ponto de não perceber que fui eu que a ensinei a aguentar com tudo, a tornar-se forte, a deixar-se de lamechices e a viver a vida como deve ser vivida

_____sem medo, sem piedade

a fazer o que raio lhe der naquela cabecinha. E eu sei ao que vem, sei o que vai fazer. Aquele olhar não engana ninguém. Ou pelo menos não me engana a mim, que o sinto todas as manhãs ao cumprimentá-la

_____pedagogicamente

com o meu sorriso mais hipócrita. O facto de ter tido a coragem de se deslocar até aqui sem se esconder

_____tão ingénua, a pensar que nunca dava pela sua presença

apanhar-me todo nú amarrado a uma cruz, de mordaça na boca

_____o jovem dominador vestido a latex ao meu lado, de chicote caído e boca aberta de espanto


e confrontar-me, só mostra que é desta, é desta que me vai matar. E julgam o quê, que estou em pânico? Não me façam rir, não me façam rir ainda mais por dentro. Olhem só para mim, prestes a morrer crucificado

_____crucificados morrem os profetas, não os filhos da puta

e continuo espirituoso, se esta ironia não tem um piadão, então o que terá? Esta vida não é para os meninos de coro

_____é para os meninos de couro, ah ah

e tomem lá outra antes de me ir, que o corpo dela a aproximar-se diz-me que já não faltará muito. Quando finalmente pára à minha frente, eu insisto em não desenhar uma única expressão. Ela tenta imitar-me, mas eu conheço-a demasiado bem. Bem sei que a sua vontade era soltar aquilo tudo e fazer disto uma tempestade sentimentalona, mas apesar disso não perde a compostura, não a perde e eu até fico um bocadinho orgulhoso. Leva suavemente

_____que elegância

a mão à mala para tirar a arma

_____o jovem dominador grita histérico e foge, que piadão

e prepara-a com aparente tranquilidade. Olha-me nos olhos durante uns segundos, à espera que me acagace e lhe implore qualquer coisa, mas não quero desperdiçar mais uma oportunidade de lhe dar uma lição

_____mesmo sendo a última

e mantenho-me completamente inexpressivo. Reparem agora como a deixo ainda mais fodida com a minha atitude, reparem que se pudesse me mataria barbaramente para rebentar em choro de seguida


_____que clichê

e no entanto resiste. Resiste estoicamente. Mas ela sabe que também não vou ceder, ela sabe-o agora melhor do que nunca, é por isso que se decide a balbuciar umas palavras para a despedida

_____não demonstra nervosismo a falar, só mostra que a ensinei bem, não treme ao levantar a arma, não hesita ao apontar-me a cabeça, comete apenas o erro de pensar que lhe ligo alguma

e eu a deixo falar de arma em riste

_____amarrado e amordaçado, que mais poderia eu fazer?, ah ah

imaginando ao mesmo tempo o ar embasbacado dos meus colegas quando souberem da notícia

_____o Doutor censurado?, não pode ser

fingindo surpresa e consternação enquanto riem por dentro, e eu a rir-me por cima por pensarem que alguma vez me poderiam enganar, mas quem é que eles pensam que eu sou?

_____és um filho da puta

diz-me ela entretanto, afinal não deve ter aprendido nada, mas agora o que é que isso importa?, ela pode dizer o que quiser

_____nunca

porque se querem saber a minha opinião

_____deverias

acho que já vem demasiado tarde

_____ter

pois sessenta e poucos anos com a vida em grande, ninguém a fazer farinha comigo, ninguém a ousar pisar-me, eu no topo do meu mundo, controlando tudo, sessenta e poucos anos, dizia, são mais do que suficientes, por isso adeus seus palhaços, adeus seus fracos, espero que tenham aprendido qualquer coisa

_____nascido

e eis que com o clique que ouço apaga-se-me de vez qualquer luz.

Terça-feira, Setembro 04, 2007

8.

Sr. Juvenal era taxista. Talvez por isso, talvez por não ter vida própria, Sr. Juvenal dedicava o seu tempo a absorver as vidas dos outros. Dizia-se até, no café perto de sua casa, que Sr. Juvenal tinha um dom

____é verdade, é verdade, ele vê as pessoas transparentes

embora ele próprio não acreditasse nisso

____escuto-lhes o silêncio, só isso.

Era assim desde pequenino e raramente, porque a modéstia o impedia de dizer nunca, se enganava. Fora, há muitos anos atrás, o primeiro a dizer que aquele Dr. censurado não era flor que se cheirasse

____algo está muito mal naquele homem

quando todos os outros lhe faziam, literalmente, uma vénia à passagem. Também advertira, com muita pena, que Susaninha enlouqueceria se com ele casasse

____vai enlouquecer, a menina

quando aos olhos de todos Susaninha, quase D. Susana, parecia segurar com as duas mãos qualquer vida que escolhesse. Mas, independentemente do silêncio que escutasse ou da transparência que vislumbrasse, nunca se intrometera em nada

____isso não posso, nem pensar

para não correr o risco de dizer algum disparate.

No entanto, naquele dia em particular, naquele momento preciso, Sr. Juvenal já não queria saber de dons ou de regras. Tudo o que Sr. Juvenal pedia era para não ter razão

____agora não, por favor

para se enganar redondamente, e desesperava por isso tremendo descontroladamente e de suor a escorrer por todo o corpo, agarrado ao volante do táxi que, no mesmo local onde tinha acabado o último serviço, continuava parado. Como é que não percebera logo

____que estúpido, que estúpido, que estúpido

o que estaria para acontecer? Aquela mulher nos seus cinquentas, tão elegante e tão arranjada, que saíra do seu táxi há minutos atrás, tinha o rosto pintado a ódio, um ódio de tal modo visceral e urgente que só poderia antever algo terrível. E Sr. Juvenal, que se perdera algures no tempo por entre o dinheiro trocado e a elegância da senhora

____que estúpido, que estúpido

só mais tarde, provavelmente demasiado, interiorizara o que tinha sentido

____vai matar alguém, ela vai matar alguém.

Estas palavras ecoavam-lhe na cabeça, rodeavam-lhe qualquer outro pensamento e paralisavam-no de medo, não conseguia sequer tirar as mãos que apertavam o volante com força cada vez maior. Sentia-se como alguém que fecha os olhos e se encolhe perante um desastre iminente, e só desejava que, por um milagre ou qualquer outra coisa fora do normal, tudo não passasse de um grande disparate que se pusera a imaginar. Mas não, a imaginação de Sr. Juvenal nunca era contrariada, por muito que lhe custasse admitir. E percebera-o para sua desgraça no mesmo instante em que, interrompendo o seu estado de pânico, a porta do carro se abrira e de novo entrara aquela mulher. O ódio, momentos antes tão vincado, desaparecera por completo, e agora apenas uma seca expressão de alívio lhe ocupava o lugar. E foi ao reparar nessa transformação que Sr. Juvenal teve o maior choque: aquele rosto, que pintado de ódio lhe fora desconhecido, revelava-se agora outro. Pior do que saber que aquela mulher matara alguém, pior ainda do que o ter imaginado e mesmo assim nada ter feito, era ter percebido de quem se tratava. Sr. Juvenal, que rompera nesse mesmo instante num choro desalmado, só conseguiu soltar, entre soluços

____mas que foste tu fazer, Susaninha, que foste tu fazer?

ao que D. Susana, que imediatamente o reconhecera sem mostrar qualquer surpresa, qualquer emoção, apenas respondeu

____esse nome perdi-o há muito

e de seguida, sempre com a mesma expressão

____leve-me para a esquadra, se faz favor.

Sr. Juvenal, mergulhado em lágrimas e em culpa, obedeceu. Consta que, ao chegar à Polícia, também ele se tentou entregar, mas ela logo o repreendeu

____não se meta nisto. Aquele pedaço de merda matei-o só eu

e ele de pronto recuou, estupefacto com o orgulho com que D. Susana

____D. Susana, não a Susaninha, nunca a Susaninha

acentuara aquelas palavras.

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

7.

À medida que vou acordando, passo as mãos pela cara, levanto-me, tomo um banho demorado, visto esta roupa estúpida, pinto-me exageradamente e arranjo o cabelo também ele estúpido. Depois sigo para a cozinha onde tomo o pequeno almoço e, na única vez que nos cruzamos durante o dia, o meu marido

_____meu marido, até me custa dizer isto da pessoa

__________da pessoa não, do animal

_____que vive cá em casa, pois vinte e seis anos sem falar, vinte e seis anos sem fazer amor, sem sequer dormir na mesma cama, nos tornam tudo menos marido e mulher

me cumprimenta com um

_____bom dia, querida

que, não fosse o facto de me entrar no ouvido tão subtilmente como um prego, pareceria perfeitamente natural

_____aplausos, por favor, uma estatueta para este homem, um prémio que lhe louve a fantástica actuação

e ao qual eu já nem respondo visto que este filme só precisa de um protagonista. Em vez disso, interrogo-me pela milésima vez sobre que raio me passou pela cabeça para casar com este, com este

_____eu sei lá o que lhe chamar. Espera, espera. Já sei

com este pedaço de merda em embrulho de luxo e pela milésima vez apercebo-me de que só mesmo uma imaginação muito inocente

_____como a daqueles maluquinhos da minha terra que juravam a pés juntos que tinham assistido a aparições de santos, virgens, profetas, deuses e portanto tudo bem, Susaninha, agora estamos curados, agora não temos medo de nada, há vida depois da morte, ele, ela guiar-nos-á pelo caminho certo

me trouxe até aqui. Susaninha, no que te foste meter, tu e o teu estúpido sonho de passar a ser dona Susana, Dona Susana, como as senhoras importantes, dezoito aninhos e toda a gente a tratar-me por Dona, os novos, os velhos, até os meus irmãos. Todos menos os meus pais, esses sabiam bem em que buraco me estava a enfiar com este, com este

_____espera

com este filho de uma grandessíssima puta

_____e perdoem-me as verdadeiras putas

que não tem outro nome. Mas se ele soubesse o que eu me vinguei, se ele soubesse que fui para a cama com tudo o que me surgiu pela frente, que fodi

_____não há outra palavra

com homens e mulheres, velhos e novos, sem hesitar por um segundo que fosse, tirar-lhe-ia o sorriso estúpido com que acentua aquele

_____bom dia, querida

aquelas três simples palavras que por momentos me dão vontade de pegar num cutelo

_____aquele maior

e acabar de vez com tanto carinho e simpatia. Mas para quê? Melhor mesmo era dizer-lhe o que fiz, o que faço, e vê-lo sofrer com cada palavra, cada uma um cutelo e no fim

_____adeus, querido

toma lá mais dois cutelos. Se lhe dissesse que quase me apaixonei por um maluquinho

_____como aqueles da minha terra de quem se ria tanto, filho da puta insensível, ele a rir-se e eu, feita importante, a imitá-lo para parecer bem, santa inocência, hoje se me falam de inocência não consigo guardar o riso histérico

era vê-lo humilhado a pegar naquele conservadorismo hipócrita, colá-lo ao corpo, atar um rastilho, acender, levantar vôo

_____olha, olha, o Doutor censurado a voar

e explodir no ar como um foguete de festa. Ah, uma nova era para todos, morto que estaria o anti-profeta, o filho da puta insensível, o hipócrita-mor, o defensor acérrimo

_____espera, espera, tenho de me rir um pouco desta

dos bons costumes e da família tradicional, o famoso Doutor censurado que

_____tenho de dizer isto

só levando uns açoites de um jovem dominador vestido a cabedal e latex conseguia ter prazer

_____primeiro umas chicotadazitas no rabinho, depois umas molas nos mamilos, uns cigarros apagados na boca, um esticador, umas pinças nos testículos, um gemer de êxtase contorcido e amordaçado, e eu a assistir a tudo apesar de ele sempre ter acreditado que eu não sabia de nada, qual Susaninha que acaba de passar a Dona Susana, iludida com o mundo em geral e com ele em particular

um animal imundo que nem rastejando para o resto da vida poderia chegar aos calcanhares de qualquer maluquinho, muito menos do meu maluquinho de estimação. E ainda assim para quê dizer seja o que for? De que me queixo se por cá me deixei ficar? Tivesse eu fugido e a esta hora poderia estar como aquele rapaz, alucinada mas bem com a vida, seguindo a mensagem escondida de profetas que se estatelam no chão

_____é verdade, acredita, veio até nos jornais

a fim de descobrir em mim e nos outros tudo o que valesse a pena, quem sabe, se estivesse suficientemente longe de tudo isto e já sem ressentimentos, até no pedaço de merda do meu marido poderia encontrar algo de bom. Mas nada é assim tão simples. Vi já demasiadas coisas para me deixar levar por histórias de encantar, mesmo por aquelas tão bonitas como a que o rapaz me contou antes de partir para outra. Tomara eu voltar aos tempos da Susaninha

_____só assim. Susaninha

em que tudo se podia sonhar, e um maluquinho como ele pegar-me pela mão, contar-me as coisas que viu e as que há para ver, fazer amor comigo por toda a eternidade e por fim levantar vôo rumo ao céu dos felizes inocentes.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

6.

Às segundas e terças era Dona Susana, a mulher de um juíz importante, farta de encenar falsa moralidade na vida de todos os dias. Às quartas e quintas Margarida, uma rapariga nos seus vintes que morava perto e que escondia o rosto, envergonhada, quando por ele passava, longe da intimidade secreta que partilhavam no quarto ainda adolescente em casa dos pais. O domingo era o seu dia de descanso, mas não sem antes partilhar as sextas e os sábados comigo. Conhecemo-nos por acaso após um cruzar de olhares mais prolongado, mas logo depois descobrimos que algo mais nos ligava para lá da obsessão que partilhávamos pelos corpos. Ele contou-me que a sua vida se transformara completamente


_____para melhor, asseguro-te. Já não tenho medo

ao ler num jornal que o meu amigo, a quem um dia disse que não aguentaria muitos mais orgasmos, decidira voar para a morte. Eu também tinha deixado de ter medo dos orgasmos, aliás, tinha deixado de ter medo de me deixar levar por alguém

_____foi ele, foi ele! Incrível aquele rapaz, trouxe-nos até aqui

e tudo junto, tudo o que era preciso juntar, em pouco tempo já navegava livremente no mar daquele Vénus, daquele alucinado que acreditava ter encarnado uma música de Bjork

_____convincentemente, confesso, aquelas mãos no meu corpo e todo o meu corpo suspenso, cinquenta centímetros acima do sítio onde deveria estar, juro

que afirmava, com uma naturalidade desarmante, que nos amava às três por igual

_____não consigo esconder-vos isso

o que, tendo em conta a pessoa que era, bem que poderia ser verdade

_____aquela boca cobrindo-me os mamilos, a língua passando lentamente, rodeando-os, o meu corpo um metro acima, juro

e eu, independentemente da estranheza que me poderia causar, sem conseguir resistir, sem querer, sequer, era tudo tão bom

_____aquela boca no meu sexo e o meu corpo dois metros acima, juro, ele em mim e eu voando livremente, não para a morte, mas para a vida

que parecia estar a sonhar, de tal modo que ainda hoje não consigo dizer, com toda a certeza, que aquilo foi real, se bem que deve ter sido porque ainda me lembro bem do dia em que acordei num lento despertar e, ao contrário do que era normal, ele não estava a olhar para mim, do mesmo modo que depois não se seguiu um beijo, não se seguiu um orgasmo, no lugar onde deveria estar o seu corpo apenas um papel escrito

_____desculpa, tive de partir

e eu primeiro petrificada, depois tranquila, afinal não poderia ser de outra forma e eu sempre o soube, um alucinado daqueles teria de partir sempre, mais cedo ou mais tarde, rumo a um novo lugar, a um novo corpo que um qualquer impulso indicasse, portanto tudo bem, a vida continuaria e eu, deitada na cama de papel na mão, a pensar em como os corpos voam, às vezes de uns para os outros, às vezes para lado nenhum, e passado este tempo apercebo-me de que o meu corpo voa hoje por toda a parte em cada orgasmo, por vezes estou em pleno estado de extâse e vejo passar o meu amigo no seu vôo descendente, aceno-lhe com saudade e ele diz-me, sem palavras, para continuar por cá porque ainda não vi nada do que guardou para mim.

Terça-feira, Maio 30, 2006

5.

A minha mulher deixou-me. Assim, sem mais nem menos. Cheguei a casa, olhei em volta, e metade do que lá existia deixou de existir. Ela incluída. Eu sabia que isto estava para acontecer, mas nunca pensei que não houvesse um aviso, sequer. Ela não gostou que tivesse mudado de vida, não entendeu o que se passou comigo. Não aceitou que de um momento para o outro tivesse abandonado aquele emprego de malucos

_____horas e horas a lidar com números, contas, orçamentos, vidas inteiras transformadas em coisas frias, mortas, a cabeça a pedir paz

e decidisse seguir o que sempre sonhei, cantar como se não houvesse nada mais para além disso

_____mas estás parvo, dez anos comigo e agora é que te dá para isso

se não o tivesse feito, acabaria por ser eu a deixá-la num final trágico

_____uma corda à volta do pescoço, um vôo delirante, uma dose exagerada de comprimidos

mas isso não era para mim, antes não ter dinheiro do que não ter vida

_____e como é que queres viver sem dinheiro, explicas-me

podia começar por baixo, cantar num desses bares pirosos para testar a reacção, depois, quem sabe, entrar num desses concursos estúpidos da tv ou juntar-me a uma banda, fazer como todos os outros porque não sou mais do que nenhum, só quero é cantar, cantar

_____he believes in a beauty, he’s venus as a boy

mas ela não entendeu, achou que estava a enlouquecer

_____estás a enlouquecer

pelo que nada mais me restou a não ser esperar que ela me dissesse

_____vou-me embora

por muito que o meu amor por ela continuasse a existir, por muito que agora me apetecesse cantar

_____his fingers, they focus on her
_____aroused her, so accurate
_____they set out the beauty in her
_____he’s venus, he’s venus as a boy

e amá-la como nunca, tocá-la como o rapaz da música, despertar algo adormecido nela, mas nada, dela apenas um silêncio que se prolongou por semanas, um mal-estar que se expressava em todo o seu corpo, um adeus que mesmo sem aviso se anunciava, e agora meia casa vazia, meia casa à espera de ser preenchida, e o meu amor a pedir-lhe desculpa, mas a dizer-me que é tempo de seguir em frente.
4.

Como é que aquele parvo foi capaz de me fazer isto? Dez anos reduzidos a pó. Obrigou-me a deixá-lo entregue à sua loucura, tudo por causa de uma estúpida notícia de jornal. Uma noite chega-me a casa, bêbedo e com uns dentes a menos, a dizer-me, naquele sorriso incompleto

_____prepara-te, vem aí uma nova vida

e eu, que tanto gostava da nossa, logo a assustar-me. Dizia-me que queria cantar como se nada mais houvesse para além disso

_____e eu, não existo

mas ele insistia e eu perdoava-lhe pensando no álcool, falava-me de um sonho antigo que eu desconhecia completamente, um acesso de loucura, parecia-me, depois pegou em mim por baixo dos braços, encostou-me à parede, e apesar de sujo e desdentado beijou-me como nunca me tinha beijado, um entusiasmo que também desconhecia, eu preocupada

_____espera, espera, mas o que é que se passou

e ele

_____deixa, depois explico-te

e continuava a beijar-me, eu a deixar-me levar, uma noite de sexo incrível, mil e um orgasmos que não podia evitar e no entanto uma grande confusão na minha cabeça, no dia seguinte lá tentou explicar-me qualquer coisa de um suicida, escritores, um momento de revelação, e eu sem perceber nada, como era possível que num instante apenas apagasse dez anos de vida e lhe desse para isso, e ele a dizer-me que não podia ser de outra forma porque senão enlouqueceria, faria qualquer coisa trágica, antes viver sem dinheiro mas a cantar do que não viver, mas como viver sem dinheiro, perguntava eu, e ele a falar-me de bares, concursos, bandas, a enlouquecer de vez, a pensar que tinha vinte anos de novo e o mundo todo à frente, mas quando tinha vinte anos não me dizia nada disto, só frases melosas como

_____quero viver contigo para sempre

e

_____amo-te tanto

nada mais interessava, éramos só nós, e agora isto, depois começa a cantar-me qualquer coisa de vénus, como que a querer explicar melhor o que queria, e eu a imaginar

_____alguém o drogou

mas não, aquilo era mesmo dele, ou melhor, de uma parte dele nunca antes revelada, e eu irritada, tão irritada com tudo aquilo, que se falasse do que me ia na cabeça era para matá-lo com palavras, mas para quê se não se deve contrariar um louco, pelo que decidi remeter-me ao silêncio esperando que esta fase lhe passasse, só que ele insistia dia após dia em libertar a beleza em mim e coisas do género e nada mais me restou a não ser fazer as minhas malinhas e pôr-me a andar antes que também eu enlouquecesse, por muito que o meu amor me dissesse que era nele que repousava.

Domingo, Abril 30, 2006

3.

Todos os dias me levanto cedo pela manhã. Tomo um banho rápido, um café e umas torradas, e lá vou eu para o emprego no meu carro velho mas fiável. Tal como a minha rotina. Ao chegar ao meu local de trabalho, sempre um pouco antes de tempo, aproveito para dar uma espreitadela no jornal. Sinceramente, nunca soube porque me deixei levar por esse hábito. Dia após dia, as mesmas desgraças, as mesmas tristezas, se bem que com elas um certo conforto pela minha rotina relativamente segura

_____cheguei até a medir, tomando em conta uma imensidão de variáveis, cruzando múltiplas vezes os dados em meu poder, a probabilidade de me acontecer algo grave num dia igual a todos os outros. Segundo as minhas contas, obviamente com falhas, perto de 0,05 para um problema sério, mas sem morte, 0,02 para uma morte imediata

e agora que o escrevo apercebo-me de que talvez seja essa mesma a explicação para insistir em tal leitura quotidiana. Mas hoje uma notícia despertou-me a atenção para lá do que é costume. “Suicídio feliz”, assim se intitulava. Dava conta de um jovem adulto que se tinha atirado de um décimo andar. Segundo a notícia, com direito a crónica opinativa de um Doutor renomado ao lado

_____a pressão social da necessidade de integração, do sucesso imediato, normal na fase de entrada na vida adulta, etc, etc, mas uma reacção muito peculiar, etc, etc, isto pode significar todo um novo estudo do suicídio, etc, etc, um caso interessantíssimo, uma oportunidade para os académicos

e apoiada nos relatos das várias testemunhas, o rapaz atirou-se do seu andar num estado de extrema felicidade, falando entusiasticamente enquanto voava, dançando até no ar, fazendo adeus aos vizinhos, assumindo uma pose grandiosa já perto do chão, uma gargalhada estridente de criança extasiada a acompanhá-lo nesse último momento, e pronto. O fim. Por entre as testemunhas, dois escritores que, nem por acaso, se debruçam constantemente sobre a morte, sem saber como reagir a uma coisa assim

_____tínhamos até uma certa proximidade, mas nós, que por sermos escritores julgamos ter maior sensibilidade em relação às mais diversas idiossincrasias, nunca nos apercebemos de nada, digo-o humildemente, uma pessoa normalíssima, sabe, sempre bem disposta, e afinal deu nisto, já viu? Por vezes parecemos tão seguros das coisas que pensamos, e afinal tão distantes que estamos de saber seja o que for, sabe? É que esta morte foi um espectáculo magnífico, eu sei que é estranho, mas foi o que vimos, e agora quase que apetece fazer uma festa no seu funeral, mas ao mesmo tempo chorar a sua partida, enfim, uma confusão de sentimentos, as palavras perdem sentido, entende?

e eu, que de tanto ler aqueles dois fiquei com medo de sair de casa e entrei nesta rotina medrosa e merdosa, calculando minuciosamente probabilidades, eu que passo 87% do tempo que estou acordado a pensar na iminência da morte

_____será que é agora, e agora, e agora

a respiração atabalhoada, o suor a escorrer-me pelo corpo, o coração descompassado, ao ler aquelas palavras comecei a sentir um impulso terrível, incontrolável, ao ponto de só me apetecer largar o emprego, pegar no carro e dirigir-me àquele local

_____o que fiz

encontrar aqueles dois escritores que tanto li

_____o que aconteceu

mandá-los para o caralho por me terem feito viver em medo constante e afinal não saberem o que dizem

_____o que mandei

e então de novo entrar no carro e espetar-me contra uma árvore ou algo assim largando uma gargalhada de êxtase, um final em grande, mas isso já não fiz porque ao reparar na morte fresca do rapaz ali perto

_____uma mancha cor de vinho entranhada no alcatrão

só me deu para deitar de barriga para baixo onde ele havia aterrado

_____deitei-me

encostar a cara ao chão e sentir o cheiro do sangue mal lavado

_____encostei, senti

e de um fôlego só respirar fundo todo o ar que mal havia respirado em todos estes anos, e ao fazê-lo uma sensação de vida incrível, uma gargalhada estridente

_____tenho a certeza que se ouviu por todo o lado

e paz. Finalmente paz.

Levantei-me, um pedido de desculpa aos escritores que olhavam para mim sem nada perceber, fui embebedar-me para o bar mais próximo, cantar todas as músicas que queria ter cantado antes de seguir a vida que segui, pegar-me ao murro com um cabrão qualquer que não estava a gostar da minha felicidade, perder uns dentes e ganhar um olho negro, mas não quero saber, não me interessa, não me preocupa, que se fodam todas as preocupações, que se fodam todos os medos, que se foda tanto absurdo. Desde que li a notícia daquele rapaz só me apetece largar tudo o que a medo me agarrei e dizer à morte que não me espere tão cedo e muito menos de joelhos.